RELIGIÃO E CAMPESINATO NO PÓS-EXÍLIO - PROJETO DE PESQUISA CIÊNTÍFICA O LIVRO DE RUTE

1. ENUNCIADO DO PROBLEMA

 

O período em que o povo judaíta esteve sob dominação persa, entre 539 a 330 a.C., é considerado um dos mais ricos e importantes da história de Israel e Judá. Nele se estabeleceram as bases para a formação do Judaísmo e, consequentemente, as raízes do Cristianismo. Nesse tempo houve intensa produção literária, sendo que dos seus escritos, muitos se tornaram parte da Bíblia Hebraica e, por decorrência, do Antigo Testamento cristão. Os textos, entretanto, não são somente produções literárias, mas também sociais, e refletem a sociedade que os produziram.
Durante a dominação persa, ao menos três grupos sociais importantes interagiam na Província de Yehud: o governo imperial, os camponeses e a elite judaica que era uma espécie de intersecção entre os demais grupos. Por um lado, essa elite representava os interesses econômicos e políticos persas; por outro lado, ela estabelecia relações de poder, domínio e governo sobre os camponeses. Nesse papel ela procurava construir uma identidade nacional na qual a religião representava um traço preponderante.
É consenso que os persas permitiam aos povos subjugados a preservação de sua cultura e religião, mas impunham um rígido controle político e intensa exploração econômica. Os camponeses, por estarem na base dessa estrutura, eram os que mais sofriam os efeitos econômicos e sociais da dominação imperial. A elite dominava a cidade e o templo de Jerusalém, especialmente após a reconstrução do muro por Neemias e seu estafe. Ela tentava impor sobre os grupos rurais seu projeto político e social. Ela se utilizava do templo, das práticas religiosas e da lei – atribuída a Moisés – como instrumentos para a realização de seu projeto.
A elite, composta em sua maioria por aqueles que voltaram do exílio, principalmente após as missões de Esdras e Neemias, tinha a lei como instrumento de legitimação de suas concepções teológicas e pretensões políticas. Essa lei, contudo, era fruto da experiência do povo que tinha sido exilado na Babilônia e afirmava muitas das práticas religiosas e marcas de identidade lá construídas ou enfatizadas.
O campesinato, composto principalmente pelos descendentes dos que tinham sido deixados na Palestina durante o exílio, havia desenvolvido uma forma de vida diferente. Diante da tragédia haviam construído uma sociedade similar à existente antes da monarquia, chamada de tribal e estruturada em torno da casa. Ele também utilizava a religião como parte da expressão de sua visão de mundo, suas esperanças, dores e desafios. Muitos textos bíblicos tiveram origem no campesinato ou, de alguma forma, refletem o seu mundo. Um deles é o livro de Rute. Ele narra a estória, passada no período anterior à monarquia de Judá, de uma viúva moabita e sua luta pela sobrevivência em meio à fome e as tradições do povo sulista. Escrito no período de dominação persa, ele apresenta importantes traços da forma de vida construída e idealizada pelos camponeses desta época. Ele reflete, ainda que de forma parcial, sua luta contra a fome, estruturas socioculturais e esperanças dos camponeses. Este livro será analisado com os pesquisadores neste primeiro semestre do projeto de iniciação científica agora proposto

2. RESULTADOS ESPERADOS

Espera-se que ao final do semestre os pesquisadores tenham desenvolvido a capacidade no uso dos métodos exegéticos e de transformar os resultados obtidos em um texto acessível tanto a iniciados no conhecimento teológico acadêmico quanto ao público geral. É desejável que os resultados das pesquisas sejam transformados em artigos de autoria dos pesquisadores e que venham a ser publicados em formato de caderno ou apostila.

 

03. Desafios científicos e tecnológicos e os meios e métodos para superá-los

 

O livro de Rute tem ocupado lugar especial na Teologia Bíblica Latinoamericana. Importantes comentários em forma de livros e artigos foram publicados. Ele também é considerado um bom texto para o estudo da língua hebraica. O presente projeto de iniciação científica pretende desenvolver nos pesquisadores a capacitação para o estudo exegético mais detalhado do que o que é possível desenvolver em sala de aula, possivelmente preparando-os para futuras pesquisas em nível de pós-graduação. Os pesquisadores também desenvolverão a capacidade de transformar os resultados da pesquisa exegética em um texto que, sem perder o conteúdo acadêmico, seja acessível a outros estudantes e até a membros e líderes das igrejas. Nessa preparação o pesquisador ou pesquisadora estará em diálogo acadêmico com importantes pesquisadores tanto da América Latina quanto do Primeiro Mundo. 

 

PAGAMENTO DA INSCRIÇÃO

 

 Os candidatos e candidatas que foram aprovados na análise da documentação acima, deverão realizar o pagamento da inscrição. Conforme decisão da Fundação Eduardo Carlos Pereira, o valor da inscrição é de uma mensalidade do Curso presencial da FATIPI, ou seja, R$ 570,00 (quinhentos e setenta reais).

 

4. CRONOGRAMA

 

Há três fases importantes no cumprimento da Complementação Teológica de Curso na IPIB. São elas:

 

1. Análise da documentação.

2. Realização das disciplinas do núcleo básico e das disciplinas complementares;

3. Elaboração de monografia e exegese de conclusão de curso.

5. DISSEMINAÇÃO E AVALIAÇÃO

Espera-se a ampla divulgação em forma de publicação física ou eletrônica e distribuição desta entre pastores, estudantes, membros e líderes da IPI do Brasil e outras igrejas ou interessados, de um modo geral.  

6. BIBLIOGRAFIA INICIAL

AHARONY, Yohanan. The Land of the Bible. A Historical Geography. Philadelphia, Westminster Press, Revised and Enlarged Edition, 1979.
ALBERTZ, Rainer. A History of Israelite Religion in the Old Testament Period. V. II: From the Exile to the Maccabes. The Old Testament Library. Louisville, Westminster/John Knox Press, 1994.
ANDIÑACH, Pablo. Introdução hermenêutica do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2015.
BRUEGGEMANN, Walter. Teologia do Antigo Testamento: testemunho, disputa e defesa. Santo André/São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2014. 
BUSH, Frederic. Ruth/Esther. Nashville, Thomas Nelson, 1996.
DEVER, William G. The Lives of Ordinary People in Ancient Israel. Grand Rapids, Eerdmans, 2012.
ELLIGER, K. e RUDOLPH, W. (ed.) Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4ª. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990.
FENTRESS-WILLIAMS, Judy. Ruth. Nashville, Abingdon, 2012.
FERNANDES, Leonardo Agostini. Rute. São Paulo, Paulinas, 2012. 
FREVEL, Christian (ed.) Mixed Marriages. Intermarriage and group identity in the Second Temple Period. New York/London, Bloomsbury/T&T Clark, 2013.
GOTTWALD, N. K. Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo: Paulinas, 1988.
HOLLADAY, William L. Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 2010.
HOLMSTEDT, Robert D. Ruth: a handbook on the Hebrew tex. Waco, Baylor University Press, 2010.
KNOPPERS, Gary N. e RISTAU, Kenneth A. (ed.). Community Identity in Judean Historiography. Biblical and Comparative Perspectives. Winona Lake, Eisenbrauns, 2009.
KNOWLES, Melody D., Centrality praticed. Jerusalem in the religious practice of Yehud & the diaspora in the Persian Period. Atlanta, Society of Biblical Literature, 2006.
MESTERS, Carlos Rute. Petrópolis/São Leopoldo/São Bernardo, Vozes/Sinodal/ Metodista, 1986.
NIELSEN, Kirsten. Ruth: a commentary. The Old Testament Library. Louisville, Westminster John Knox, 1997.
RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. Vol.1e 2. 2ª. edição revisada, São Paulo, Aste/Targumim, 2006, 901p.
RÖMER, Thomas; Jean-Daniel Macchi; Christophe Nihan (Org.) Antigo Testamento: história, escritura e teologia. 2ª. ed. São Paulo, Loyola, 2015. 
ZENGER, E. et alii. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003.

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