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A ESPERANÇA QUE FALTA

  • Foto do escritor: FATIPI FECP
    FATIPI FECP
  • 8 de jan. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de jan. de 2020

No início de mais um ano, geralmente são comuns manifestações de pessoas sobre as expectativas em relação ao futuro. Uns são otimistas e esperam um ano melhor, com novos projetos e mudanças significativas para a vida pessoal, familiar e profissional e também para a vida espiritual; outros são pessimistas e já não esperam muita coisa da vida, porque estão desiludidos, frustrados, achando que tudo será igual ou pior, sem mudanças significativas. Os gregos antigos diziam que o destino é imutável, e a esperança, uma ilusão, a maldição humana. Em nossos dias, a exemplo dos gregos, há os que se dizem desapontados, desesperados em relação à vida; há até os que chegam a dizer: “sentido na vida só encontraremos se fabricá-lo”. Apesar de tanto pessimismo, não temos dúvidas de que sem esperança ninguém viverá bem e feliz. Mas se ninguém consegue viver sem algum tipo de esperança, onde, porém, está a causa de tanta desilusão e desespero?

Infelizmente o ser humano tornou-se desiludido porque equivocou-se em suas prioridades em relação a vida, colocando sua esperança em valores transitórios, efêmeros. Muitos têm se apegado ao poder do dinheiro, da força física, da beleza material, da fama e posição social, dentre outros. Todos estes são valores passageiros sem qualquer garantia de bem-estar perene ou de boa qualidade de vida. Todos estes são até relativamente importantes! Contudo, eles não podem ser considerados fim em si mesmos, nem são suficientemente capazes de atender a todas as demandas da vida complexa que levamos. Eles não preenchem o vazio do qual pode estar possuído o ser humano em nosso tempo. Se por um lado eles podem trazer alguma satisfação para a vida das pessoas, por outro também têm sido causadores de outros problemas e sofrimentos de difícil solução de maneira pragmática.

Quanto mais o ser humano se beneficia dos progressos materiais de nosso tempo, sem uma perspectiva definida da existência de um valor superior e relevante ou mesmo de um Ser Superior à sua capacidade de superação diante dos desafios que ameaçam a vida, mais ele se torna sujeito ao tédio, ao enfastiamento, ao desespero. Os que negam, desiludidos, a possibilidade de esperança realizadora são exatamente aqueles que endeusaram o seu próprio eu, suas ideias, suas forças físicas, seus recursos, sua cultura e, decepcionados com o seu narcisismo nem sempre consciente, se deixam dominar pelo pessimismo em relação à vida.

A esperança é fundamental para o ser humano porque faz parte da própria estrutura da vida humana. É uma necessidade psicológica a qual todos somos levados a aderir, de uma maneira ou de outra. É impossível viver sem um porvir, ainda que seja incerto e sombrio. As coisas que esperamos, e até o modo como as esperamos, realizam parcialmente o nosso ser. Quando cultivada, a esperança se transforma em forças no indivíduo, para vencer tensões, sofrimento e angústia, podendo contribuir para o equilíbrio emocional do ser humano.

Deus pode ser a base para a esperança até dos desesperados. Porque nEle encontramos a esperança que não confunde nem ilude. Os gregos tinham razão em pensar na esperança como uma ilusão porque os seus deuses, como o Demiurgo, por exemplo, eram estáticos, indiferentes, distantes de seus adoradores. Não se envolviam com os problemas humanos. Tinham uma postura contemplativa e nada podiam oferecer aos seus fiéis em qualquer situação. Diferentemente do Demiurgo e outros deuses da Antiguidade, o nosso Deus sempre se revelou na história de Seu povo de maneira dinâmica, interferindo extraordinariamente na vida desse povo, cumprindo promessas e desafiando os poderes do mal. De maneira atuante, Deus alimentou e conduziu o povo de Israel no deserto, deu-lhe vitórias, multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho, ressuscitou mortos e perdoou pecados. Na vida de muitos desesperados, Ele suscitou a esperança para a vida completa e abundante. Foi assim que Jesus transformou a mulher samaritana em proclamadora do Evangelho, deu vista aos cegos, curou leprosos e prometeu vida eterna para o ladrão da cruz.

Sendo Deus a nossa verdadeira esperança, a esperança que tem faltado em nossa vida, ao aceitá-Lo como tal, seremos capacitados para viver mais e melhor, mesmo vivendo em um mundo atribulado, qualquer que seja a nossa condição de vida. Pois entenderemos melhor que este mundo é passageiro; que não devemos nos satisfazer com meras alegrias e que o futuro não deve ser temido, mas enfrentado sob a garantia de que Cristo intercede por nós junto ao nosso Pai celestial.

No Salmo 40 Davi nos dá um belíssimo testemunho de esperança diante de suas tribulações: “Esperei com paciência pela ajuda do Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, dum tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos e me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verãos essas coisas, temerão e confiarão no Senhor” (Sl 40.1-3). Eis aqui a grande diferença entre os deuses dos gregos e o nosso Deus, como cristãos. Adoramos a um Deus que age na história e, em particular, em nossa história de vida pessoal, ao livrar-nos dos perigos e ameaças de morte deste mundo e coloca em nossa boca um novo canto, de esperança e libertação. Acreditamos que seja esta a esperança que falta na vida de muita gente.


Rev. Leontino Farias dos Santos

Professor e Vice-Diretor da FATIPI



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