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A PARÁBOLA DO PAI ACOLHEDOR

Em Lucas 15.11-32, Jesus conta uma história em forma de parábola sobre um pai e dois filhos. Aliás, em Mateus 21.28-32, ele conta outra parábola sobre um pai e dois filhos, em outra situação. Parece que, ao usar estas imagens, Jesus estava tratando de algo muito profundo para a cultura judaica da qual fazia parte. E não podia ser diferente, tendo em vista a importância que se dava à linhagem de pais antigos, desde Abraão.

Na história de Lucas, conhecida por nós como a “Parábola do filho pródigo”, as situações são mais detalhadas, fugindo inclusive do estilo das parábolas costumeiras de Jesus. Pensando no papel do pai da parábola, queremos propor outro título para a história: “a parábola do paia acolhedor”. Vamos fazer uma exposição comentada do texto, indicando as atitudes deste pai, que servem de desafio para nós.

Logo no início da parábola é colocada a situação: o filho mais jovem pede sua parte na herança. Aparentemente o homem tinha uma boa propriedade, sendo que seu filho mais novo decidiu que queria usar sua parte. Segundo as leis da época, a transmissão dos bens do pai podia se dar de duas formas: por testamento (após a morte) ou doação entre vivos. Neste caso, o bem passava a ser administrado pelo filho, mas só poderia vender após a morte do pai, ou seja, ele não podia dispor da propriedade.

No caso da parábola contada por Jesus, temos uma primeira novidade: o pai permitiu a venda da parte que cabia ao filho mais novo, com isso ele pôde dispor do recurso para ir para uma terra distante. Muitos moradores da Judeia iam morar em ricas cidades do império romano, buscando melhores condições, mas aqui o pai agiu de uma forma diferente de seu tempo, ao permitir a venda e a viagem do filho.

Ao gastar todo o dinheiro de forma irresponsável e passar fome, o filho mais novo se converte (“cai em si”), se arrepende de sua decisão e decide voltar ao pai. Mas será que o pai aceitará esta situação?

Ao chegar em casa, em vez de encontrar um pai fechado e magoado, na verdade encontrou um homem que ansiava pelo retorno do filho. A respeito deste trecho, temos os seguintes destaques: a atitude do pai foi totalmente contrária ao que se esperaria de um homem do status dele. Nenhum oriental de idade e rico correria, pois isso é indigno. Segundo, ele agiu mais como uma mãe agiria, correndo até o filho e acolhendo-o com beijo e abraço. Jesus retrata aqui um pai que está longe de agir como agiria um homem típico de seu tempo; ele quebrou diversas convenções do papel de pai daquela época.

Mesmo com o filho se mostrando indigno, o pai decidiu dar-lhe o melhor tratamento. A ordem dele para os empregados faz lembrar a história de José (Gn 41.42). Dar roupas de excelente qualidade era uma prática oriental de alta distinção e acolhida honrosa. O anel provavelmente devia ser o anel-sinete, que o proprietário usava para “assinar” documentos. E a sandália nos pés era a marca do homem livre, pois só os escravos podiam ficar descalços. Tudo isso indica que o pai não apenas o acolheu, mas o colocou de novo numa posição de honra, como filho legítimo. A seguir, uma festa foi organizada pelo pai devido à chegada do filho mais novo.

Depois dito tudo, entra em cena o irmão mais velho, que não saiu de casa. Ele só fica sabendo da festa quando volta do árduo trabalho no campo. Que reação ele terá?

Não nos surpreende a reação do irmão mais velho. Sentiu-se rejeitado, mesmo estando ao lado do pai. Um tanto de inveja, outro tanto de ódio pelo caçula subiram à cabeça dele. O pai, mais uma vez, expressa sentimento de acolhida, ao sair da festa e ir ao encontro do filho. Que argumentos usará?

A resposta do pai ao filho mais velho mostra duas facetas de seu amor e atitude acolhedora. Por um lado, ele deixa claro que a propriedade pertence de fato ao filho mais velho, como determinava a lei da época. Depois de morrer ele seria o herdeiro de tudo, já que o irmão pegara a sua parte antes. Mas, por outro lado, ele mostra que as pessoas são mais importante que as coisas, seja a propriedade, seja a comida. A festa aqui representa a importância da ocasião, tanto para o pai quanto para as pessoas que com ele convivem. Se ele teve misericórdia de um filho que tomou sua parte e gastou tudo, por que não terá daqueles e daquelas que com ele ficaram?

A lição que a parábola nos passa, pensando no comportamento do pai, é esta: se queremos espelhar em nossas relações com nossos filhos e filhas o mesmo amor que Deus nos deu, devemos agir como ele: ter um coração perdoador, uma atitude acolhedora, mesmo em face de situações que nossos filhos gerem frustração, desapontamento e até decepção. Haveria muitas situações concretas que poderíamos citar, mas cada um saberá onde esta mensagem lhe pesará, e que desafio ela deixa para nossa vivência concreta de pais. Deus nos dê sabedoria e força para agir como este pai.


Prof. Marcelo Carneiro

Professor de Novo Testamento na FATIPI

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