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EDUCAÇÃO TEOLÓGICA E ESPIRITUALIDADE

Embora existam várias alternativas para a prática da religião, o ser humano também tem procurado praticar a espiritualidade de maneira “não religiosa”, com atitudes e gestos capazes de atender às suas necessidades. O teólogo Shirley C. Guthrie chama esse novo modelo de “espiritualidade secularizada”. Segundo ele, mesmo vivendo numa sociedade marcada pelo secularismo, não se pode duvidar da busca de uma “nova espiritualidade”: “Não é difícil identificar as raízes dessa fome espiritual. Ainda que as pessoas de dentro e de fora da igreja procurem satisfazê-la de forma diferente, todas falam a seu respeito da mesma forma. Elas sentem tédio opressivo, falta de sentido, estagnação, pulverização, falta de esperança, aniquilamento da vida individual e das relações pessoais, em seu trabalho” (Guthrie, 2000). É uma nova procura dos valores do espírito.

Na atualidade confunde-se o sentido de religiosidade com o de espiritualidade. Toda religiosidade pode conter o sentido de espiritualidade, mas nem toda espiritualidade inclui necessariamente a religiosidade. Esta, como prática, geralmente inclui normas de conduta, dogmas de fé, simbologia, cerimônias, a necessidade de um deus para ser crido e reverenciado, intercessões, penitências, oferendas, templos e lugares sagrados, sacerdotes, pastores, outros religiosos, tudo valorizado por sua própria tradição.

A espiritualidade em si, é um evento que ocorre nas relações do indivíduo com o sagrado, independentemente da religião. No sentido de algo não religioso, está relacionada à busca que se faz do transcendente por significados para a vida, dentro ou fora dos lugares sagrados da religião. Para o pessoal de empresas e de terapias organizacionais, a espiritualidade está relacionada às necessidades que temos de relacionamento com o sagrado, ou com coisas às quais seja atribuído um sentido místico, baseado em propósitos reais, valores nobres, capazes de dar sentido à vida social.

 Quando buscamos uma relação entre teologia e espiritualidade, pode-se até imaginar a impossibilidade de harmonia entre as duas, em particular no protestantismo. Os fundamentalistas negam a validade da filosofia e outras áreas de conhecimento e mesmo a validade da teologia, em relação ao estudo e compreensão das Escrituras Sagradas. Mas também ninguém nega que produzem historiadores e exegetas que tentam harmonizar a Bíblia com as ciências, como fez Werner Keller, da escola liberal alemã com a publicação do livro “E a Bíblia tinha razão” (1955). O autor, mesmo sem ser teólogo, alega que achados arqueológicos provam que os acontecimentos da Bíblia são verdadeiros. Esse texto pretende mostrar a validade da Bíblia, embora não agrade os mais conservadores porque exclui o mistério dos milagres; contudo, tem alimentado a espiritualidade dos fundamentalistas, apesar de não ser uma reflexão genuinamente teológica.

 A teologia não se harmonizaria com a espiritualidade quando vista apenas como reflexão racional, produzida por eruditos, auxiliada por outras ciências ou a espiritualidade apenas relacionada com a cultura popular dos fiéis e suas crenças, sem erudição. Na prática, o Prof. A. G. Mendonça (1964) nos ajuda a entender essa relação quando se refere à biografia espiritual de Schleiermacher (1768-1834) e à de Reinhold Niebuhr (1892-1971). Destaca que ambos viveram em tempos distantes, em espaços diferentes, mas que foram movidos em sua reflexão teológica por suas circunstâncias sócio-históricas em que se achavam envolvidos e pela fé intensa que tinham no Evangelho, apesar da erudição que possuíam. Com essa citação, Mendonça (1994) quer mostrar que não existe tensão entre o saber teológico e a prática da espiritualidade.

Mendonça também cita o livro “Pia desideria”, de Spener (1675), no qual o problema da espiritualidade na educação teológica (século XVII) já era uma preocupação. Ele constata que a igreja nesse tempo não estava bem espiritualmente, por isso que Spener queria que os estudantes de teologia se aperfeiçoassem nos exercícios devocionais, prioritariamente, ainda que a vida acadêmica ficasse em segundo plano e dizia: “[...] que os alunos preferidos são aqueles que, embora não tirando boas notas, levam vida de piedade”, enfatizava Spener, para quem a teologia é adorno para uma vida com intensidade espiritual. Ela seria erudição e, prioritariamente, prática da espiritualidade. Citando Lutero, diz Spener: “Um homem não se torna teólogo por compreender, ler e especular, mas por viver, morrer e ser sacrificado” (1675).

 É inegável que há possibilidades de combinação entre estudos teológicos e vida devocional. Não podemos imaginar que a espiritualidade não possa ser aliada da vida acadêmica teológica. Isto porque a totalidade da vida e da tradição da igreja é composta do conhecimento (razão) e sentimento (espiritualidade). Ambos não podem estar em conflito nem se excluem mutuamente. Todo culto deve ser “racional” e “santo” (Rm 12.1-2). É no culto que a teologia acontece sob a inspiração do Espírito Santo sobre as Escrituras Sagradas.

Considerando que a espiritualidade é tema de debate em outras áreas de conhecimentos e segmentos sociais, além da religião, por que, exatamente no âmbito da teologia, que trabalha com religião e fé cristã, não haveria espaço para tal experiência? Imaginamos que haja excessos envolvendo a teoria (teologia) e a prática (exercício da espiritualidade). Há falta de humildade nos que estudam teologia quando consideram a espiritualidade preconceituosamente como segmento inferior da fé cristã; e há excessos na crítica dos que se dizem “mais espirituais” em relação à teologia como produto da reflexão mais racional.

Rev. Leontino Farias dos Santos

Professor e Vice-Diretor da FATIPI


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