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RESENHA: BEM-AVENTURADAS SÃO AS PESSOAS NEGRAS

Atualizado: 4 de dez. de 2023


O Sermão do Monte na perspectiva afrodescendente


PROENÇA, Sérgio Paulo, Bem-aventuradas são as pessoas negras. São Leopoldo: CEBI, 2022.

Paulo S. de Proença, professor da Unlab-Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, produziu excelente texto sobre as Bem-aventuranças, conforme Mateus (5.1-16;) e Lucas (Lc 11.6-11), à luz da situação de negras e negros. Ele os vê como sujeitos históricos, dignos das bênçãos divinas. Faz uma releitura do texto na perspectiva afrodescendente; e recupera o sentido da Palavra de Deus, sem interpretações ideológicas.

Proença dividiu sua análise em três partes: a primeira, é um comentário sobre os textos de Mateus e Lucas, à luz da cultura negra, para contemplar aspectos de sua história e cultura; a segunda, são informações adicionais, como ajuda na compreensão dos textos, e reconhecimento das características do ambiente, do tempo próprio e do lugar do texto na vida dos afrodescendentes. Na terceira parte, desafia-nos com “um estímulo adicional para que negros e negras se exponham ao texto bíblico, e se incluam nas bem-aventuranças.” Que cada um aplique, o texto à sua história, à história da família e do povo negro, para que se considere bem-aventurado.

São também agrupados os versos da parte final da sequência, sobre o “sal da terra” e “luz do mundo”. O autor destaca aspectos como: o cenário (o monte), os personagens (as multidões), a autoridade de Jesus (sábio e Mestre), a postura de Jesus (viu as multidões).

Há bem-aventuranças que incluem discussões mais complexas. É o caso do texto sobre “pobres de espírito”. Sem unanimidade entre os comentaristas, quando Jesus considera felizes “os pobres de espírito”, reconhece que, de fato, ser pobre, já tem o sentido de “maldição” e não de “bênção”. Proença adverte: não se veja no texto o “pobre”, como oposição à riqueza proveniente do capitalismo, mas no sentido de “ter espírito de pobreza”, como os que renunciam o amor à riqueza. Neste caso, negras e negros sempre foram tidos como “pobres” porque, originários da escravidão, foram empobrecidos, tiveram sua liberdade roubada pelos poderosos.

Na bem-aventurança que se refere aos que choram, Proença lembra que negras e negros devem identificar-se nessa promessa, com o seu sofrimento como escravos e escravas, e em relação ao sofrimento que ainda os acompanha, como as lágrimas que vêm da violência, dos filhos prisioneiros, entre outros. Em relação aos “mansos, porque herdarão a terra”, o autor diz, como nas demais bem-aventuranças, que o texto não pode ser espiritualizado, porque no contexto da literatura bíblica, a herança da terra tem sentido de vida, libertação física, preservação da natureza. Logo, os afrodescendentes, que em sua tradição sempre cuidaram e protegeram a “mãe-terra”, serão felizes quando esta lhes for possível, sem a ganância do capitalismo.

Na referência aos “que têm fome e sede justiça”, Proença inclui esta bem-aventurança com a anterior pois está ligada à vontade de Deus e à sua distribuição igualitária, para todos. Ao mesmo tempo, sugere cuidados na interpretação sobre a misericórdia, pois não há “misericórdia espiritual”, nem se deve concluir que misericórdia é “benemerência” ou assistencialismo”. A bem-aventurança sobre “os limpos de coração”, deve ser interpretada junto com o Salmo 24.3-5, que especifica quem é o “limpo de coração”, e quem estaria distante dessa graça. Na bem-aventurança sobre os pacificadores, adverte: não se pode transformar “pacificadores” em alguém com “serenidade”. Observa que a paz é Jesus é construída, com ações no mundo, para torná-lo pacífico. Alerta os seguidores de Cristo a estarem preparados, quando perseguidos na luta pela paz, como aconteceu com os afrodescendentes, na luta pela libertação.

Quanto aos perseguidos por causa de Jesus e sua justiça, na defesa de Sua obra, Proença lembra a inclusão de negras e negros, diante das perseguições e violência que sofreram; inclui cuidado com a ideologia, que mascara a história dos afrodescendentes; com a interpretação fundamentalista sobre sua origem, com base em textos bíblicos selecionados, e invalidam a luta e a história da tradição negra, de seu valor e protagonismo.

Finalmente, sobre o “sal da terra”, Proença traz lições sobre como dar sabor aos alimentos, na conservação dos valores do Reino. Sobre a “luz do mundo”, destaca que para Jesus a luz só é luz quando ilumina e se torna visível. Lembra, que as negras e negros quando foram para as senzalas, minas e prisões, por causa da cor da pele, a glória do Pai foi negada. Que os afrodescendentes sejam seguidores de Jesus, e vejam a glória de Deus no mundo!

A segunda parte do livro, é uma extensão da primeira, com informações adicionais, onde Jesus é mestre de sabedoria; “um representante de um sistema cultural, em que a sabedoria ancestral, dá sentido à vida pessoal e comunitária, e isso caracteriza a aproximação direta com a tradição ancestral africana.”

Proença conclui com sugestões para círculos bíblicos, e proposta de reescrita do Sermão do Monte à luz das tradições dos afrodescendentes, da sabedoria ancestral; como ser sal da terra e luz do mundo; comparação das narrativas de Mateus e Lucas; e pede respostas às questões: quem são os bem-aventurados de hoje, além de negras e negros e a quem os “ais” de Mateus e Lucas se dirigem hoje?

O livro é essencial para bibliotecas de Teologia e estudos sobre a cultura afrodescendente.


Rev. Leontino Farias dos Santos

Professor da FATIPI

Pastor da IPI de Vila Yara

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