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A ESPERANÇA COMO ANTECIPAÇÃO ESCATOLÓGICA

Atualizado: Jan 15


“Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.20)


A esperança pode ser entendida na mesma proporção que a fé. Tanto uma quanto a outra são dádivas de Deus para todas e todos que foram adotados em Jesus Cristo como filhos e filhas. Foi o apóstolo Paulo quem tratou de modo comparativo os termos fé e esperança; aliás, em todo contexto em que Paulo fala da fé, fala também da esperança. Por exemplo, em Rm 8.18-25, Paulo coloca a condição dos salvos em Cristo como aqueles que aguardam, em esperança, a glória final. Desse modo, assim como a fé, sendo dom de Deus, pressupõe o exercício humano para que se adquira experiência e maturidade espiritual, a esperança também é dom de Deus e de igual modo pressupõe o exercício humano para que esta seja sempre antecipadora daquilo que cremos receber apenas no final. É desta afirmação que estamos apontando para a esperança escatológica.

É nesse ponto que cabe o destaque sobre a função antecipadora do Espírito Santo, pois tem o sentido de antecipar algo que está previsto apenas na consumação dos tempos, isto é, somente depois que formos chamados à glória celestial, a exemplo de Jesus Cristo. É antecipadora porque, semelhantemente à vitória que Cristo obteve na cruz, sendo glorificado na ressurreição, nós também, pela fé, somos alimentados diariamente pela esperança que antecipa em nós a certeza da vitória, anunciada em 1Co 15.19: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”.

Todos nós, seres humanos, vivemos os dramas da existência. Existir pressupõe viver todas as experiências que os seres humanos estão sujeitos, sejam eles crentes ou não, sejam eles de quaisquer classe social, raça, etnia, cultura e até mesmo os mais devotados em religião. Isto significa dizer que, todos nós passaremos pelos altos e baixos nas mais diversas áreas da vida, como saúde, enfermidade, conquista, derrota, alegria, tristeza, santidade, pecado, riqueza, pobreza, juventude, velhice. Tudo isso é muito forte na vida humana por uma razão muito simples: todos nós somos seres conscientes, criados à imagem e semelhança de Deus. Isso nos permite olhar para o passado, analisar o presente e também antever, por fé, o futuro. E isso, naturalmente, gera desgaste emocional, ocasionando, por vezes, ansiedade, medo, angústia e, por associação, a certeza da morte física potencializa ainda mais esse quadro. É exatamente a consciência que temos de tudo aquilo a que estamos sujeitos que acaba gerando em nós o conhecido “vazio existencial” ou, conforme ensina a religião, “vazio na alma”. E nesse ponto, nem mesmo a Bíblia evitou descrever o sofrimento de tantos personagens, homens e mulheres, que apesar de sua íntima comunhão com Deus, sofreram os dramas dos altos e baixos da vida e ainda o dramático peso da certeza da morte.

Talvez essa seja a razão de as palavras “fé” e “esperança” serem usadas constantemente no dia a dia das pessoas, independentemente de serem religiosas ou não; exemplo disso pode ser visto em trecho da canção de Raul Seixas que diz: “Tenha fé em Deus, tenha fé na vida, tente outra vez”. Contudo, é importante lembrarmos de que fé e esperança, numa perspectiva bíblica e teológica, apesar de se assemelharem ao uso popular feito no cotidiano das pessoas, são dotações do Espírito Santo de Deus que marcam exclusivamente os filhos e filhas de Deus. Com isto afirmamos que, diferente da fé e esperança populares, a fé e esperança doadas por Deus potencializam em seus eleitos a experiência descrita na Tradição Reformada como “Perseverança dos crentes”; se no dia a dia das pessoas a fé e a esperança populares podem falhar, a fé e esperança dotadas em nós pelo Espírito Santo jamais falharão. E não falham exatamente porque são sinais escatológicos, isto é, são sinais que os crentes experimentam em sua vida espiritual que os potencializam a continuar crendo e esperando pela providência de Deus até o fim. Daí vem o sentido escatológico utilizado pelo apóstolo Paulo ao mencionar que a ressurreição de Jesus Cristo é o penhor, a garantia de nossa ressurreição. O teólogo alemão Jürgen Moltmann interpretou esse penhor da ressurreição de Jesus como sinal portador de esperança. Moltmann chamou a este sinal de “antecipação proléptica”, afirmando que, da mesma forma que Jesus Cristo venceu a morte e foi glorificado, nós, de igual modo, pela fé cremos que seremos também, no último dia, glorificados. Assim, é por meio da fé que podemos antecipar o futuro; e toda vez que antecipamos em esperança o futuro, temos a sensação da ação consoladora do Espírito Santo em nosso coração que não nos permite sucumbir diante dos dramas existenciais.

Portanto, a ação antecipadora do Espírito Santo tem a função de doar em nosso coração o poder da fé, com a qual desenvolvemos por meio da experiência a esperança e por meio da esperança a perseverança, como bem disse o apóstolo Paulo em Rm 5.1-5 e 2Co 1.3-11. Eis o privilégio de estarmos entre aquelas e aqueles que foram alcançados pela graça regeneradora de Cristo. A esperança com a qual fomos dotados pelo Espírito Santo é o combustível que mantém acesa a chama da fé em nosso coração, capaz de nos revigorar todas as manhãs, conduzindo-nos no caminho que nos levará ao Reino Celestial.


Rev. Adilson de Souza Filho

Professor de Teologia da FATIPI

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