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A RESSURREIÇÃO E OS CHEFES DOS SACERDOTES

Diante de toda gratidão, fé e fascinação que experimentamos quando lemos os relatos da ressurreição de Jesus, podemos acabar não prestando atenção a alguns detalhes que também são espantosos, ainda que negativos. Este é o caso da discreta passagem de Mateus 28.11-15. Este pequeno texto nos conta a história de como alguns dos guardas do sepulcro correram para notificar os chefes dos sacerdotes a respeito da ressurreição de Cristo e serviram, de certa forma, como antitestemunhas do que havia acontecido. Eles foram basicamente subornados para contar uma falsa história, dizendo que os discípulos roubaram o corpo do Senhor durante a noite.

Como é possível que testemunhas de primeira mão do maior acontecimento da história da humanidade se submetam a isso? E como explicar a ação destes religiosos que simplesmente se recusam a aceitar a ação de Deus na história? Na verdade, o que vemos aqui é uma repetição de ações que são constantes ao longo de toda a memória do povo de Deus registrada nas Escrituras, na história da igreja ao longo dos séculos e até mesmo na realidade em que vivemos hoje.

Em primeiro lugar, vemos como os poderes humanos e mundanos (no pior sentido da palavra!) buscam, com todo empenho, controlar a ação de Deus na história. As narrativas do Antigo Testamento são cheias de relatos em que vemos sacerdotes, reis e rainhas que se afirmam submissos ao mesmo Deus, Pai de Jesus Cristo, buscando silenciar profetas, manipular a justiça, controlar pessoas e afrontar a ação divina (apenas como alguns exemplos, veja 1Re 19; Am 7.10-17; 2Cr 13).

Os vinte séculos de história da Igreja são também recheados de episódios assim. Em vários episódios, os chefes dos sacerdotes foram mais fiéis à manutenção do seu poder político e econômico do que aos valores do reino de Deus. A própria história do movimento reformado foi um exemplo de como o agir de Deus em meio à humanidade foi combatido com a força bruta dos poderes mundanos.

E o que todos estes casos têm em comum? Veja que nessas situações temos sempre pessoas que se dizem representantes de Deus, ocupando posições de grande prestígio, pessoas que exercem liderança espiritual sobre filhos e filhas do Senhor, atuando exatamente contra os valores do Evangelho, contra o novo que o Espírito Santo faz brotar em meio a situações de morte e sofrimento.

E quando olhamos para a nossa realidade hoje, o que você vê? Você consegue enxergar pessoas que agem como representantes de Deus buscando consolidar o seu poder político, abusando do poder econômico para tentar (em vão, sempre em vão!) controlar a ação divina em nosso meio?

Creio que lembrar sobre esta ação dos chefes dos sacerdotes no episódio da ressurreição deve nos fazer pensar sobre como exercer o nosso discernimento. Muitas vezes nos preocupamos com fatores secundários e somos convencidos de que existem inimigos externos a ser combatidos a todo custo, quando na verdade temos falsos líderes se beneficiando desta situação.

Em segundo lugar, é interessante observar que a estratégia usada para tentar brecar as boas novas da ressurreição de Cristo é a criação de uma mentira. Os discípulos, aqueles que andavam mais próximos de Jesus, aqueles que seriam os porta-vozes da novidade de Deus, são acusados injusta e falsamente de terem roubado o corpo do Senhor na calada da noite.

Também aqui é inevitável fazer um paralelo com a realidade em que vivemos. Estamos diante de um caso claro de “fake news”! Os guardas espalharam essas notícias falsas, e as consequências foram terríveis. Para que você tenha uma noção melhor da extensão disso, pense no seguinte: os estudiosos da Bíblia são praticamente unânimes em dizer que o Evangelho segundo Mateus foi escrito mais ou menos quarenta anos depois da morte e ressurreição de Jesus. E a última declaração desta triste passagem que lemos nos conta que, desde o domingo de Páscoa até a época do registro escrito do relato verdadeiro, tivemos essa “fake news” sendo divulgada entre os judeus.

Quantas pessoas foram impedidas de desfrutar da comunhão e da vida plena que vêm pela fé na ressurreição em Jesus Cristo por causa de uma mentira? E mais, quantas destas pessoas, membros do povo de Deus segundo a antiga aliança, de maneira bem-intencionada acabaram sendo usadas para também espalhar essas “fake news” do roubo do corpo do Senhor?

Existe uma razão pela qual esse relato é tão pequeno, praticamente um parêntese dentro do testemunho glorioso das coisas que se passaram naquele domingo: o poder político e econômico dos chefes dos sacerdotes não chegou nem perto de abafar o poder de Deus; as “fake news” espalhadas pelos guardas não foram capazes de silenciar as boas novas da ressurreição de Cristo. E é neste espírito que celebramos mais uma vez a Páscoa: na confiança irrestrita que depositamos no poder de Deus e na entrega absoluta ao testemunho da verdade da ressurreição. Que Deus nos abençoe!

Rev. César Marques Lopes

Professor e coordenador do Curso de Teologia EAD-FECP

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