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Origens históricas da comemoração Natal

Estamos no mês do Natal.

Serão elas válidas do ponto de vista bíblico? Terão elas alguma base histórica?

A história é grande mestra! Vamos examinar o passado para saber a origem dessa grande festa do cristianismo.

1) Quando Jesus nasceu?

Quando chega o Natal, costumamos ler textos bíblicos que tratam do nascimento de Jesus. Trechos do livro de Isaías e dos evangelhos de Mateus e Lucas são muito utilizados. Temos de começar por aí. Nenhuma das profecias referentes ao Messias aponta a data do seu nascimento. Dentre os quatro evangelhos, dois (Marcos e João) nada dizem a respeito do nascimento de Jesus. Somente Mateus e Lucas contam alguma coisa. Uma pergunta fica no ar: por que dois dos evangelhos nada dizem do nascimento de Jesus?

Temos de nos contentar com os evangelhos de Mateus e Lucas. Somente eles nos apresentam informações sobre o nascimento de Jesus. Mas não dizem quando Jesus nasceu. Palavras de Mateus: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, em dias do rei Herodes...” (Mt 2.1). Esse texto somente nos informa que Jesus nasceu quando Herodes era rei, o que é muito vago. Palavras de Lucas: “Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria... José subiu da Galileia para a Judeia... à cidade de Belém... a fim de recensear-se com Maria... Estando eles ali... ela deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2.1-7). Este texto deixa claro que Jesus nasceu na época de um recenseamento convocado com César Augusto quando Quirino era governador da Síria.

A partir de tais dados, podemos afirmar que, segundo a Bíblia, é impossível saber quando Jesus nasceu

2) A importância da morte e da ressurreição do Senhor

Temos de atentar para outra questão, de natureza teológica: é correto valorizarmos o dia do nascimento de Jesus?

Examinemos o costume da igreja primitiva. Ela atribuía mais valor à morte e à ressurreição de Jesus. Cada domingo era o dia da comemoração da ressurreição do Senhor. Quanto ao dia da morte, sua valorização se estendeu também aos apóstolos e mártires. Eles sempre eram lembrados não no dia do seu nascimento, mas no dia da sua morte por causa do testemunho fiel ao evangelho.

Arnóbio, um cristão do final do século III, ridicularizava os pagãos que tinham o hábito de celebrar o dia do nascimento dos deuses. Orígenes, outro cristão do mesmo período, afirmava que comemorar a data de nascimento era paganismo.

Tudo isso nos remete a uma conclusão: os primeiros cristãos não marcaram a data do nascimento de Jesus nem se preocuparam comemorá-la. A sua atenção se voltava para a morte e ressurreição do Senhor.

3) As comemorações do nascimento de Jesus

Temos, agora, um problema: como surgiram as comemorações da data do nascimento de Jesus?

No segundo século, uma doutrina surgiu ganhando muita força. Chamava-se gnosticismo. Seu ensino era o de que Jesus se tornara o Filho de Deus somente a partir do seu batismo.

Entre os gentios, havia comemorações especiais no dia 6 de janeiro: era a data da festa de Dionísio, um deus muito popular entre os gregos e os romanos, que lhe deram o nome de Baco. Era também data da festa do nascimento de Aeon e do nascimento de Osíris, em Alexandria, no Egito.

Os gnósticos recorreram à mesma data para comemorar o batismo de Jesus. E o dia 6 de janeiro foi estabelecido como a da encarnação da divindade em sua pessoa

Era preciso fazer frente tal doutrina! Jesus era o filho eterno de Deus e, quando nasceu, já era Deus vivendo em forma humana. Uma das maneiras de combater o gnosticismo foi a de se passar a comemorar o nascimento de Jesus como uma grande festa cristã. Foi assim que a igreja começou a comemorar, no dia 6 de janeiro, o batismo de Jesus, acrescentando-lhe um novo significado: era o dia do seu batismo e, também, o dia do seu nascimento.

Na primeira metade do século IV, esta celebração já estava fortemente arraigada. Celebrava-se no dia 6 de janeiro tanto o nascimento como o batismo de Jesus.

4) Natal no dia 25 de dezembro

Como explicar, então, o fato de nós comemorarmos o Natal no dia 25 de dezembro? Como se chegou a essa data?

Para esclarecer este ponto, temos de lembrar um dos acontecimentos mais importantes da história da igreja: a “conversão” ao cristianismo do imperador romano Constantino, no início do século IV.

Para aumentar o seu poder e o poder do Império Romano, Constantino, um hábil político, trabalhou para obter a unidade religiosa. Nos domínios do Império Romano, havia muitas religiões. Todas elas eram toleradas. Para conseguir a unidade religiosa, Constantino deu dois passos fundamentais: primeiro, unir o paganismo ao cristianismo; segundo, combater as divisões que existiam dentro da própria igreja.

Para unir os pagãos aos cristãos, era preciso encontrar algum ponto em comum entre eles. Ora, uma das religiões mais difundidas em Roma chamava-se mitraísmo, que realizava o culto ao sol. E a principal festa religiosa ao sol acontecia exatamente no dia 25 de dezembro. Antes da introdução do mitraísmo no Império Romano, os imperadores já tinham erigido um templo ao “Sol Invictus” (“Sol Invencível”) e promoviam festas em homenagem ao imperador também no dia 25 de dezembro. Esta data, pois, era muito conveniente: unia pagãos e cristãos, além de estabelecer uma identificação do nascimento de Jesus com a figura do imperador

Mas havia ainda o problema das divisões internas da igreja. Não era conveniente para Constantino ter uma igreja fragmentada.

Por isso, promoveu ele uma reunião dos líderes cristãos, no ano 325. Foi o Concílio de Niceia. Nessa assembleia, foi condenada a doutrina de que Jesus tornara-se divino somente após o seu batismo. O Concílio estabeleceu que Jesus era da mesma substância que Deus, desde toda a eternidade.

Encerrado o Concílio, outra tarefa teve de ser feita: fazer com que toda a igreja aceitasse as decisões de Niceia. Exatamente neste ponto é que entrou a modificação da data da comemoração do Natal.

Até então, a comemoração do nascimento de Jesus ocorria no mesmo dia da comemoração do seu batismo: 6 de janeiro. Duas comemorações diferentes, de significados diferentes, na mesma data, davam margem à dúvida. Realçando-se a comemoração do batismo, havia um favorecimento à doutrina de que Jesus tornara-se divino após o seu nascimento. Era necessário evitar tal problema. Era preciso colocar as duas comemorações em datas diferentes.

Foi assim que a Igreja de Roma passou a comemorar o Natal no dia 25 de dezembro. Foi um grande sucesso. Até hoje, para muitos cristãos, é a mais importante celebração religiosa

Conclusão

A única conclusão possível é a de que as origens da comemoração do Natal têm profundas influências do paganismo. O mesmo poderia ser dito a respeito de muitos costumes que cercam nossas celebrações natalinas. Temos o hábito de falar na “gruta de Belém”, dos “três reis magos”, de enfeitar pinheiros nas casas e nos templos com bolas coloridas, luzem que piscam e até algodão imitando a neve. Trocamos presentes e temos até um absurdo “Papai Noel”, vestido com roupas de inverno em pleno verão de nosso país tropical.

Nada disso tem origem bíblica! É verdade que dois dos evangelhos mencionam alguma coisa sobre o nascimento de Jesus. Podemos, pois, celebrar o Natal com alegria e simplicidade. Mas quem tinha razão era a Igreja Primitiva: a morte e a ressurreição do Senhor são as proclamações evangélicas centrais e mais importantes!


Rev. Gerson Correia de Lacerda

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